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St John Paul II's 1st Apostolic Visit to Portugal

12th - 15th May 1982

Pope St John Paul II was a pilgrim to Portugal for the first time in 1982, over the feast of Our Lady of Fatima & the first anniversary of the assassination attempt on his life. Papa São João Paulo II visited Lisbon, Fatima, Vila Viçosa, Coimbra, the Shrine of Sameiro in Braga, Praça dos Aliados and Porto during this his 11th apostolic voyage. JPII returned to Portugal in 1991 (for the 10th anniversary of his assassination attempt) & in the Jubilee 2000, when he beatified the visionaries Francisco & Jacinta Marto.

JPII's itinerary included the following:
12th May - Welcome ceremony, Meeting with laity in the Cathedral of Lisbon, with the Franciscan community in the Church of St Anthony, Meeting with the President, with the public authorities and with the Bishop of Leiria in the Chapel of the Apparitions in Fatima
13th May - Meeting with the Bishops of Portugal in Fatima, Holy Mass before the Shrine of Our Lady of Fatima, Prayer of entrustment and consecration to the Virgin of Fatima, Meeting with the clergy and religious, with the co-workers of the Shrine, Farewell ceremony from Fatima and Meeting with the Diplomatic Corps in Lisbon
14th May - Holy Mass for the people of the agricultural world in Vila Viçosa, Visit to the Catholic University in Lisbon, Ecumenical meeting and Holy Mass for young people in Lisbon
15th May - Meeting with the Bishop of Coimbra, with university professors & representatives of the world of culture in Coimbra, Holy Mass for families in the Shrine of Sameiro in Braga, Meeting with workers in Praça dos Aliados and Farewell ceremony in Porto

Discurso do Papa São João Paulo II na Cerimonia de Boas-Vindas
Aeroporto Internacional de Portela em Lisboa, Quarta-feira, 12 de Maio de 1982 - also in Italian

Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Senhor Cardeal Patriarca, Senhores Arcebispos e Bispos,
Senhoras e Senhores, caríssimos amigos de Portugal,
1. AGRADEÇO A DEUS e agradeço a todos a grande alegria com que piso hoje o solo de Portugal. Agradeço a Vossa Excelência, Senhor Presidente da República, pela deferente presença aqui, em nome pessoal e a representar o hospitaleiro e honrado Povo desta nobre “Terra de Santa Maria”, ao qual, por Vossa Excelência, dirijo esta minha primeira mensagem.

Seja louvado nosso Senhor Jesus Cristo!

Com estas palavras, de reconciliação e de paz, para a renovação dos corações e dos espíritos no amor, inaugurava o meu ministério de Bispo de Roma e Pastor da Igreja universal; com elas quero saudar-vos no início desta minha peregrinação a Portugal. À maneira de saudação simbólica acabo de beijar o chão pátrio de Portugal. É um gesto simples que se repete, mas denso de significado, a provocar em mim uma emoção sempre nova, com um fundo constante – o único amor de Jesus Cristo – mas bem diferenciada pelos novos amigos que encontro. Primariamente, da minha parte, esse gesto significa amizade, pela amizade de que me vejo rodeado e que me dita um sentido “muito obrigado”. Muito obrigado a todos vós!

Desejaria que este agradecimento fosse aceite por todos os que aqui, por credenciais diversas, representam Portugal e se empenharam por tornar possível esta minha viagem, convidando-me e trabalhando na sua organização; em particular, pelos homens da Igreja, meus Irmãos no Episcopado, que aqui vieram dar-me as boas-vindas em nome da Igreja que está neste País que muito amo.

2. Estou em Portugal, a realizar um sonho há muito acalentado, como homem da Igreja e desejoso de conhecer Fátima directamente; estou aqui a acolher amáveis convites de meus Irmãos Bispos, de Sua Excelência o Senhor Presidente da República e dos muitos portugueses que me manifestaram um tal desejo: um grande número de cartas que recebi, nestes últimos tempos, e de viva voz; estou aqui hoje, graças a Deus “rico em misericórdia”. Esta minha peregrinação tem um sentido dominante: Fátima; seguirei depois um itinerário mariano, por Vila Viçosa, Sameiro e “Cidade da Virgem”. Em direcção à Fátima ou no retorno de Fátima, levo no coração o cântico de acção de graças de Nossa Senhora, por Deus me ter salvado a vida, aquando do atentado sofrido, a 13 de Maio do ano passado; assim, em atitude adoradora, vou repetindo:

“A minha alma glorifica o Senhor / e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador” (Luc. 1, 47).

Em visita pastoral, desejaria, juntamente com os meus Irmãos Bispos e confirmando-os, animar a Comunidade eclesial; e, com humildade e simplicidade, comunicar Cristo e anunciar a sua mensagem e apregoar a “dimensão humana” do mistério da Redenção, em que o homem pode encontrar a grandeza, a dignidade e o valor próprio da sua humanidade.

Assim, Pastor com os seus Pastores e peregrino com a Igreja peregrina em Portugal, sinto neste momento a necessidade de exprimir o mais alto apreço e render preito às tradições cristãs desta terra abençoada, pequena pátria de um grande Povo, que se ufana de empresas históricas arrojadas, com ressaibos de aventura. Isso foi circunstância e ocasião providencial para os filhos desta Nação dilatarem a Fé, recebida desde o berço, numa gesta de evangelização, que o mundo católico e não só, reconhece, admira e agradece: das florestas de Amazónia até às frias plagas japonesas, passando pela África e pelas Índias, o nome de Cristo foi anunciado por generosos missionários portugueses.

3. Mas, não se podendo evangelizar, se não se está evangelizado, aqui rendo preito também à Igreja viva e dinâmica, identificada com a maioria da população portuguesa, que, ao longo dos séculos, com fidelidade ao Redentor do homem – aqui cultuado sobretudo nos seus mistérios da Paixão e da Eucaristia – com devoção a Nossa Senhora, que seria proclamada Rainha e Padroeira de Portugal, e em adesão à Sé Apostólica de Roma, soube manter a sua opção por Cristo, dando ao mundo Santos da envergadura de um Santo António de Lisboa; venho também prestar homenagem a este Santo universal, neste ano de comemorações antonianas.

Salve Portugal, de gente honrada, generosa, paciente, laboriosa e cheia de pundonor, terra de Mártires, Santos e heróicos servidores do Evangelho de Cristo. A evocação sumária e homenagem ao teu passado, funde-se em mim, nesta hora de alegria, com a visão de esperança do teu presente, do qual iremos falando ao longo destas jornadas, e do teu futuro que eu almejo próspero, pacífico e feliz para todos os teus filhos, do Minho ao Algarve, das outras regiões insulares e onde quer que se encontrem; para os emigrantes espalhados pelo mundo e para aqueles que tendo voltado à pátria, aqui procuram reorganizar a sua vida: enfim, para todos sem excepção vão os meus melhores votos de felicidades. Confio este votos desde já em prece a Nossa Senhora de Fátima, Mãe de Deus, Mãe da Igreja e dos Povos, sob cuja protecção coloco a minha visita a Portugal, ao invocar sobre esta dilecta Nação as bênçãos de Deus omnipotente e misericordioso.

Discurso do Papa JPII no encontro com os Leigos na Catedral de Lisboa
Quarta-feira, 12 de Maio de 1982 - also in Italian

"Seja louvado nosso Senhor Jesus Cristo!

MUITO OBRIGADO, irmãos e irmãs, pela amizade e alegria deste encontro, aqui, no coração de Lisboa antiga e senhoril, impregnada de história e pujante de vida!

Obrigado a Vossa Eminência, Senhor Cardeal Patriarca, Dom António Ribeiro! Com penhorantes palavras quis saudar-me e interpretar os sentimentos, não só dos presentes, da Igreja que está neste Patriarcado de Lisboa – aqui tão distintamente representada – mas de quantos desejariam tomar parte neste encontro com o Papa, o primeiro a nível estritamente eclesial, na ilustre “casa Lusitana”. È um momento de júbilo e gratidão, dizia Vossa Eminência; e desejo, do coração, que seja também de felicidade e plenitude para todos, certos de estar o Senhor connosco, aqui reunidos “em Seu nome” (Mt. 18, 20).

1. Venho até vós motivado pelo amor de Cristo, em visita que é, por sua natureza, pastoral; e venho sobretudo em peregrinação a Fátima, para aí celebrar, em adoração agradecida, “as misericórdias do Senhor”, com Maria, a serva do Senhor. Cada paragem e encontro – gratíssimos, sem dúvida –, tém também carácter de etapa neste meu peregrinar em gratidão a Nossa Senhora e, com Ela e por Ela, em gratidão ao Omnipotente que “me fez grandes coisas” (Cfr. Lc. 1, 49).

Ao preparar-me para este encontro, nesta bela Catedral antiga, eu pensava em vós e rezava por vós com grande afecto; e, ao informar-me desta cidade, eu tentava imaginar os protagonistas do passado e do presente, neste cenário, onde pouco a pouco se foi estabelecendo o reino de Cristo, bem lembrado pela imponente estátua que agora domina a cidade, em gesto, não de posse, mas de oferta: para Cristo, reinar é servir e amar.

2. No meu louvor a Deus pela gesta evangelizadora, aqui cumprida ou aqui iniciada, eu pensava na solidez de raízes seculares, dos Católicos de Portugal, cujos antepassados no cumprimento de missão histórica e religiosa inserida na história universal – que sem tais protagonistas talvez fosse pelo menos diferente – lhes legaram uma herança, rica de glória e responsabilidade: glória a que rendo preito de admiração, nesta hora; a responsabilidade que, pela sua dimensão eclesial, aqui quero realçar. Seja-me permitido dirigir estas reflexões, em particular, ao Laicado católico.

Olhai, irmãos e irmãs, que aqui sois e representais esse Laicado, eu não duvido de estardes conscientes desse passado e de que à sua luz vos prezais de viver o presente, empenhados em construir o futuro, cada vez mais segundo o pensamento de Deus criador, redentor e senhor da história. Nesta certeza, a juntar-se à certeza da potência do Mestre e Senhor da Igreja, que é sempre “o princípio estável e o centro permanente da missão que o próprio Deus confiou a cada homem”, Cristo Jesus (Redemptor hominis, 11), se funda a muita esperança com que vejo o Laicado católico da vossa terra.

A Igreja de Deus, toda ela, e imediatamente a que vive, ora, luta e espera, em toda a abençoada “Terra de Santa Maria”, confia em vós, dispostos como estais a colaborar com Cristo, que não veio para ser servido, mas para servir (Cf. Mt 20, 28), em fidelidade ao Pai e em fidelidade ao homem.

3. Vós optastes por Cristo, na Igreja: opção feita de uma vez para sempre, com a aceitação do dom inestimável do Baptismo, consciencializada no dia da Primeira Comunhão, ratificada com o sacramento da Confirmação e vivificada em seguida com toda a vida sacramental, cujo “centro e ápice é sempre a Eucaristia” (Lumen Gentium, 11)

E qual é a vossa vocação, responsabilidade e missão de leigos?

Vós bem o sabeis: o leigo está integrado no Povo de Deus, que caminha neste mundo rumo à Pátria celeste. Fostes conquistados e santificados por Cristo, que vos resgatou por alto preço: não foi com ouro ou prata, mas com o seu precioso sangue (Cfr. 1Pd 1, 18). E fostes chamados à santidade, tendo por modelo o próprio Cristo, na sua doação integral ao Pai e aos irmãos: “como Aquele que vos chamou à santidade, sede também vós santos em todas as vossas acções” (Ibid. 1, 15). Mas olhai que a santidade, mais que uma conquista, é dom que vos é concedido: o amor de Deus foi derramado em vossos corações pelo Espírito Santo que vos foi dado (Cfr. Rm 5, 5).

Desde o início os cristãos reconheceram-se como os grandes beneficiados do Senhor. Reuniam-se para juntos agradecer, celebrando o dom por excelência – a Eucaristia – em assembleia. Esta reunião é tão importante que, aos poucos, os cristãos se denominam por ela: eles mesmo são igreja. E como símbolo deram também ao local da reunião o nome de igrejas. Fostes chamados por Deus para a vida em comunidade, em Igreja. E de novo, se trata de uma graça: foi o Senhor que vos reuniu em Igreja, que vos fez igreja, unidos a todo o Corpo eclesial espalhado pelo mundo inteiro.

O dom de Deus que vos foi dado, constitui o sinal de que sois amados por Ele. Assim, ser cristão não é, primariamente, assumir uma infinidade de compromissos e obrigações, mas é deixar-se amar por Deus, como o próprio Cristo que é o amado e se sente o amado pelo Pai, conforme atestou com toda a sua vida e diz expressamente: “O Pai ama-me” (Jo. 10, 17).

A nossa profissão de fé inicia com estas palavras: Creio em Deus Pai. Nelas se resume toda a atitude cristã: deixar-nos amar por Deus como Pai. Cada um de nós é amado por Deus e conhecido pelo próprio nome como filho. Eis porque é sempre possível dirigir-nos confiantes a Ele. Foi Cristo, como “irmão” mais velho, quem no-lo ensinou.

4. Amados por Deus, pois, certamente perguntareis: o que é que nos compete fazer, na qualidade de leigos? O cristão nunca pode limitar-se a uma atitude meramente passiva, de puro receber. A cada um é dado um “dom” diferente, de acordo com a efusão do Espírito, mas para o proveito comum.

Daqui, da própria natureza de baptizados, deriva a exigência do apostolado na Igreja, a qual é sacramento constituído por Cristo para atingir todos os homens, e para isso é continuamente vivificada pelo Espírito Santo.

A vossa missão de leigos, portanto, fundamentalmente é a santificação do mundo, pela vossa santificação pessoal, ao serviço da restauração do mundo. O Concílio Vaticano II, que tanto se debruçou sobre os leigos e o seu papel na Igreja, acentuou bem a sua índole secular. É o cristão que vive no mundo, responsável pela edificação cristã da ordem temporal, nos seus diversos campos: na política, na cultura, nas artes, na indústria, no comércio, na agricultura...

A Igreja há-de estar presente em todos os sectores da actividade humana e nada do que é humano lhe pode permanecer alheio. E sois vós, principalmente, prezados leigos, que a deveis tornar presente. Quando se acusasse a Igreja de estar ausente de algum sector, ou de despreocupar-se de algum problema humano, equivaleria lastimar a ausência de leigos esclarecidos ou a não actuação de cristãos naquele determinado sector de vida humana. Por isso dirijo-vos um apelo caloroso: não deixeis a Igreja ficar ausente de nenhum ambiente da vida da vossa querida Nação. Tudo deve ser permeado pelo fermento do Evangelho de Cristo e iluminado pela sua luz. É vossa tarefa fazê-lo.

5. Ao apostolado leigo individual, feito de actividades pessoais e, sobretudo, de testemunho cristão devem juntar-se as formas associadas de apostolado em que os leigos se unem para realizar juntos certos objectivos. Longe de se excluírem, as duas formas completam-se. Nenhuma forma associada de apostolado é eficaz sem um testemunho pessoal de cada membro. Por outro lado, diante das exigências hodiernas, que superam de longe as capacidades individuais, requer-se um esforço conjugado para levar a mensagem evangélica ao coração da civilização.

Existem muitos movimentos e formas de organização do apostolado leigo; todos são importantes e úteis quando imbuídos de um verdadeiro espírito eclesial e cristão de serviço. Cada qual tem os seus objectivos, com métodos próprios no seu sector ou no seu meio; mas é imprescindível ter consciência da complementariedade e estabelecer laços de estima entre eles, em que assente o diálogo uma certa conjugação de esforços e mesmo uma real colaboração. Pertencemos a uma mesma Igreja. Cabe-nos estimular-nos mutuamente no bem. Todos devemos trabalhar juntos pela mesma causa. Cristo é um só. Mesmo sendo muitos os ministérios e as actividades todos concorremos para um mesmo objectivo: que Cristo seja anunciado, que os homens encontrem a salvação, que o bem comum seja servido e, enfim, Deus em tudo seja glorificado.

6. A vivência generosa e testemunho corajoso da vossa identidade, sabemo-lo, transcende meras qualificações sociológicas; exige algo profundamente pessoal, que insere na comunidade “ontológica” dos discípulos de Cristo, na “videira” que é o mesmo Cristo, a formar uma “só coisa” com Ele e com os irmãos, e ditar união de forças e intentos, para o frutificar humano-divino da própria vida a partilhar, e da actividade a desenvolver.

Já se deixam entrever, como imperativos indeclináveis: o cultivo da fé e da vida divina, a frequência dos sacramentos e o dever da oração constante; a necessidade, mais do que a simples vantagem, da fidelidade à Cátedra de Pedro, da comunhão profunda com a Hierarquia bem inseridos nas perspectivas da Igreja local, em aderência aos vossos Bispos e em sintonia com as Comissões episcopais nacionais, em união com o clero e com os religiosos; a exigência de associações realisticamente organizadas e informadas pelo amor: “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros, como eu vos amei” (Jo 13, 34s.).

O diálogo, presença e inserção no mundo, de que tanto se ocupou o recente Concílio, pode amedrontar ou seduzir. Mas vós, irmãos e irmãs, sabeis que o Senhor pensava também no hoje em que vivemos, quando, com amor, recomendava “não se perturbem os vossos corações” (Ibid. 14, 27). E dirigindo-se ao Pai, ainda no mesmo contexto, orou por cada um de nós nestes termos: “Pai, santifica-os na verdade. A Tua palavra é a verdade” (Ibid. 17, 17).

Fiéis à Verdade, irmãos e irmãs, continuemos a participação na realeza de Cristo, servindo, como Ele Senhor e Mestre fez e ensinou. Este é o caminho: cristãos no aconchego da intimidade pessoal; cristãos no interior do lar – como esposos, pais e mães e filhos de família, em “igreja doméstica”; cristãos na rua, como homens e mulheres situados; cristãos na vida em comunidade, no trabalho, nos encontros profissionais e empresariais, no grupo, no sindicato, no divertimento, no lazer, etc.; cristãos na sociedade, ocupando cargos elevados ou prestando serviços humildes; cristãos na partilha da sorte de irmãos menos favorecidos; cristãos na participação social e política; enfim, cristãos sempre, na presença e glorificação de Deus, Senhor da vida e da história.

E assim, com o coração cheio de confiança e amor, desejo, irmãos e irmãs, que “tudo o que é honesto, tudo o que é justo e tudo o que é puro... seja objecto dos vossos pensamentos... E o Deus da paz estará convosco!” (Cfr. Fl 4,8s.). Ao retornardes aos vossos lares levai a bênção do Papa para as vossas famílias.

Coragem! Com afecto em Cristo, dou-vos a Bênção Apostólica."

Discurso do JPII a Comunidade Franciscana na Igreja de S. Antonio
Lisboa, Quarta-feira, 12 de Maio de 1982 - also in Italian

"Excelentíssimos Senhores Presidente e Vereadores da Câmara Municipal de Lisboa,
Amados filhos de São Francisco, meus irmãos e irmãs,
1. GRATO PELA HONROSA presença da Excelentíssima Câmara Municipal e pela vossa, a todos saúdo com alegria franciscana. E servindo-me da palavra do Apóstolo, aos caríssimos Franciscanos começo por dizer: “em primeiro lugar, dou graças ao meu Deus, por Jesus Cristo, a respeito de vós, porque a vossa fé é conhecida em todo o mundo” (Rm 1, 8). E para isso contribuiu sobremaneira Santo António, que estamos a honrar neste momento e neste lugar.

Aqui, nesta casa, em boa hora transformada em oratório pelas Autoridades da Câmara lisbonense, nascia pelos fins do século doze Santo António de Lisboa, também invocado como Santo António de Pádua. Na feliz expressão do meu predecessor Leão XIII, ele é “o Santo do todo o mundo”. Neste mês de Majo, precisamente no dia 30, vamos comemorar os setecentos e cinquenta anos da sua canonização, facto a que andam ligadas conhecidas tradições de vibração popular (cf. Léon de Kerval, Sancti Antonii de Padua Vitae duae, Paris 1904, 116-117).

Este ano, tambén está a celebrar-se, por todo o mundo, o oitavo centenário do nascimento de São Francisco de Assis. Temos, pois, redobrado motivo para nos alegrarmos. E nesta hora, quereria fazer minhas as palavras do Papa Pio XII, para exclamar: “Exulta, Lusitania felix!”. Em especial Franciscanos e Franciscanas de Portugal, exultai! Rejubilem as Autoridades e o povo de Lisboa! Alegrai-vos, todos vós portugueses espalhados pelo mundo inteiro.

2. O movimento franciscano – é para mim motivo de satisfação lembrá-lo aqui – incidiu profundamente no ânimo dos populações de Portugal; e não apenas da gente humilde e iletrada: era aos filhos de São Francisco, segundo consta, que a Santa Sé recorria, muitas vezes, a fim de serem intermediários e seus porta-vozes perante os monarcas e nobres, a apaziguar contendas, a lembrar, com humildade mas também com firmeza, deveres e obrigações.

A vocação missionária dos Franciscanos portugueses, logo a seguir a Santo António, vê-se testemunhada no facto de Frei Lourenço de Portugal, no século XIII, ter sido enviado ao Oriente pelo Papa Inocêncio IV (cf. Antonino Franchi, La svolta politico-ecclesiastica tra Roma e Bisanzio, 1249-1254, Roma 1981, 15, 16, 37, 74, 123, 127, 128, 161). E sabe-se que a Regra dos Frades Menores inclui um capítulo sobre as missões (Regula Bullata, cap. 12, Regula non Bullata, cap. 16, ed. Caietanus Esser, O. F. M., Opuscula sancti Patris Francisci Assisiensis, Grottaferrata 1978, 237-238, 268-271). Foi esse espírito que os levou à África, Índia, Brasil, Ceilão e Extremo Oriente. Assim, a presença dos Filhos e Filhas de São Francisco em Portugal, nos países de expressão portuguesa nos vários continentes, mostra-se rica de obras de evangelização, assistência, ensino e serviço paroquial.

Quereria realçar aqui a importância dos pequenos e humildes conventos de clausura, onde continua vivo o espírito do Fundador e de Santa Clara, elevando-se aí de contínuo preces para que o múltiplo e activo labor dos outros Irmãos e Irmãs “não extinga o espírito de oração e devoção, ao qual as demais coisas devem servir”, como diz a Regra (Regula Bullata, cap. 5, ed. Esser. Opuscula, 231). Como eu gostaria de dispor de tempo para reflectir convosco sobre este ponto! A oração é sempre a alma da evangelização, a alma de todo o apostolado, a nossa grande força espiritual.

3. Inspiradas na irradiante simpatia de Santo António, também entre os jovens, de Portugal partiram, especialmente no século passado, beneméritas iniciativas em favor da juventude, que depois se estenderam a outras partes do mundo. Que estas comemorações antonianas sirvam de estímulo para intensificar o interesse franciscano pelos jovens, de acordo com as directrizes da Igreja universal e em espírito de colaboração com as Igrejas locais, aliás conforme a orientação de São Francisco e de Santo António.

E não quereria deixar sem uma palavra benevolente a Ordem Terceira que sei estar activa e a renovar-se entre vós. É esperança da Igreja e confiança do Papa que ela rejuvenesça, bem sintonizada com o Concilio Vaticano II, com novas forças e o entusiasmo de quem se sente “fermento na massa” e participante na missão de Cristo.

4. O perfil biográfico do universalmente venerado Taumaturgo português, amados Filhos e Filhas de São Francisco, é de todos vós bem conhecido: da escola da Catedral aqui ao lado, a São Vicente de Fora, até Santa Cruz de Coimbra, é viandante enamorado evangelicamente de Deus, à procura de uma maior interiorização e vivência do ideal religioso, abraçado em plena juventude, entre os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Depois de ordenado sacerdote, em Coimbra, a sua ânsia de uma resposta mais radical ao apelo divino leva-o a maturar o propósito de maior dedicação e amor a Deus, no desejo ardente de ser missionário e mártir em África. Com esta intenção se tornou Franciscano.

A Providência, porém, encaminhou Frei António para terras de Itália e da França. Nas primeiras experiências de Franciscano aceita as contrariedades, fiel ao ideal, e responde com alegria aos desígnios divinos, numa entrega total de serviço generoso, pregando e ensinando teologia aos Frades, em atitude paciente, como o lavrador que aguarda, até receber a chuva temporã e a tardia, até se manifestar, de algum modo, o Senhor (cf. Iac 5, 7). Que bela lição de vida, Irmãos e Irmãs! Depois consuma a sua breve existência, chegando a exercer, servindo sempre com humildade, o múnus de ministro ou superior na Ordem. Ao morrer, com cerca de quarenta anos, dele se poderiam repetir as palavras da Sabedoria: “chegado em pouco tempo à perfeição, completou uma grande carreira” (Sap 4, 13).

O seu ensino e ministério da Palavra, como a sua vivência de frade e sacerdote, são marcados pelo seu amor à Igreja, inculcado pela Regra (Regula non Bullata, cap. 17, ed. Esser, Opuscula, 271). “Exegeta perfeitíssimo na interpretação das Sagradas Escrituras, exímio teólogo no perscrutar os dogmas, doutor e mestre insigne no tratar os assuntos da ascética e mística”, como diria o Papa Pio XII (Pio XII, Exulta, Lusitania Felix: AAS 38 [1946] 201. Lopes, S. António de Lisboa, 296-297), prega insistentemente a Palavra (cf. 2 Tm 4, 2), movido pelo desejo evangelizador de “reconduzir os transviados aos caminhos da rectidão”. Fá-lo; porém, com a liberdade de um coração de pobre, fiel a Deus, fiel à sua resposta a Deus, em adesão a Cristo e em conformidade com as directrizes da Igreja. Uma verdadeira comunhão com Cristo exige que se cultive e ponha em prática uma harmonia real com a comunidade eclesial, regida pelos legítimos Pastores.

5. O Doutor Evangélico fala ainda aos homens do nosso tempo, sobretudo indicando-lhes a Igreja, veículo da salvação de Cristo. A língua incorrupta do Santo e o seu aparelho fonético encontrado maravilhosamente intacto parecem atestar a perenidade da sua mensagem. A voz de Frei António, através dos Sermões, é ainda viva e penetrante; em particular, as suas coordenadas contêm um apelo vivo para os religiosos dos nossos dias, chamados pelo Concílio Vaticano II a testemunhar a santidade da Igreja e a fidelidade a Cristo, como colaboradores dos Bispos e Sacerdotes (S. Antonii Patavini, O. Min. Doctoris Evangelici Sermones Dominicales et Festivi, Dominica II de Adventu, Patavii 1979, 478-491. Trad. HENRIQUE PINTO REMA, O. F. M., Santo António de Lisboa. Obras Completas, Lisboa 1970, 39-43).

É assaz conhecido o bilhete de saudação de São Francisco a Frei António, escrevendo-lhe: “apraz-me que leias teologia aos Frades, contanto que, nesse estudo, não extingas o espírito de oração e devoção, como se contém na Regra” (Epist. ad Sanctum Antonium, ed. critica Esser, Opuscula, cap. IV, 95. HENRIQUE PINTO REMA, O. F. M., Santo António de Lisboa. Obras Completas, I, Lisboa 1970, XVII). E um conceituado teólogo atesta que o Doutor Evangélico soube permanecer fiel a este princípio: “... a exemplo de João Baptista, também ele ardia; e desse ardor provinha a luz: era uma lâmpada que ardia e brilhava” (cf. Francisco da Gama Caeiro, Santo António de Lisboa, I, Lisboa 1967, 147-148). Por isso, Santo António ficou na história como precursor da Escola Franciscana, permeada pela finalidade sapiencial e prática do saber.

6. Caríssimos Irmãos e Irmãs:

Sei que o Senhor Cardeal Patriarca, a Câmara Municipal de Lisboa e a Família Franciscana estão a envidar esforços para que seja erguido nesta Cidade um grande templo, futura Catedral, dedicado a Santo António, também para perpetuar a devoção das Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo. Bela e louvável iniciativa! Oxalá ela possa congregar todos os portugueses à volta do grande Santo António de Lisboa, em unidade de fé e harmonia de corações, para a glória de Deus.

Mas esse templo material há-de ser sobretudo expressão de “vós mesmos, como pedras vivas, aplicadas na construção de um templo espiritual”(cf. 1 Pd 2, 5), com a vida, o ministério e serviço apostólico, que devem ser sempre portadores de valores evangélicos. Que o exemplo de Santo António cale profundamente no vosso ânimo, para continuardes a sua obra, como dispensadores de salvação e da bondade de Cristo e servidores da Sua Igreja, com o testemunho e o anúncio da Boa Nova.

A vossa vida consagrada e a vossa colaboração para difundir o Evangelho são motivo de ânimo e de alegria para mim, na minha missão de Pastor da Igreja universal. Que Deus vos ajude e chame muitos outros a seguir Cristo na vida religiosa, segundo o espírito do “Pobrezinho de Assis”, como o soube assimilar Santo António. Por sua intercessão imploro para todos “Paz e Bem”, com a minha Bênção Apostólica."

Discurso do Papa João Paulo II ao Presidente da Republica Portuguesa
Lisboa, Quarta-feira, 12 de Maio de 1982 - also in Italian & Spanish

"Excelentíssimo Senhor General António Ramalho Eanes
Presidente da República Portuguesa
1. ESTOU MUITO AGRADECIDO a Vossa Excelência pela requintada hospitalidade com que acaba de receber-me. E, neste momento, desejo reiterar-lhe a expressão do meu agradecimento também pela diferente presença, no Aeroporto à minha chegada a Portugal. Por Vossa Excelência, vai a minha gratidão para todo o querido Povo português e para os seus ilustres Representantes, pelo empenho e disponibilidade que demonstraram para se tornar realidade esta viagem que agora faço à “Terra de Santa Maria”. Neste delicado interesse manifestado, quero salientar os convites que me foram feitos, sobretudo por Vossa Excelência pessoalmente; eles vieram juntar-se a um desejo do Episcopado de Portugal, que há muito me fora expresso pelo Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa, Dom António Ribeiro, na qualidade, então, de Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.

Toda a estima, sensibilizante – nesses convites e nos gestos de homenagem com que se quis distinguir o Sucessor de São Pedro na Sé de Roma – não se detêm, certamente, na minha pessoa: o preito vai para o Pastor da Igreja universal que, nessa qualidade, visita terras portuguesas; vai, em última análise, para o Senhor e Mestre da mesma Igreja, Jesus Cristo, com o seu iniludível direito de cidadania na história do homem.

Encontro-me em Portugal, portanto, em visita pastoral; e sobretudo, em peregrinação a Fátima; e é-me grato, ao mesmo tempo, satisfazer os imperativos da amizade, de uma amizade antiga, que existe entre este dilecto País e a Sé Apostólica de Roma.

2. Com efeito, vêm de longa data as relações que ligam Portugal com a Sé Romana de São Pedro. Perde-se na bruma dos séculos aquele momento em que, pela primeira vez ressoou, neste torrão pátrio das gentes lusitanas, ao tempo da presença romana na Península ibérica, o nome bendito de Cristo. E deste então, com a fé cristã, os povos da Lusitânia aceitaram também a Igreja, que o mesmo Jesus Cristo quis firmar sobre a “rocha” de Pedro, ao qual também quis confiar a responsabilidade do magistério e ministério de todo o Povo de Deus, espalhado sobre a face da terra. Gradualmente foram-se instaurando as relações estruturais como expressão e sustentáculo do amor e da fidelidade à Igreja, una e católica, dos fiéis das dioceses destas Regiões, de Braga a Ossónoba, em termos actuais das terras que vão do Minho ao Algarve.

E creio poder afirmar-se, numa visão retrospectiva, que esse amor dos fiéis destas terras ao Sumo Pontífice Romano, só terá sido superado pela sua conhecida devoção a Cristo Redentor – sob os mistérios da Paixão e da Eucaristia – e a Nossa Senhora que, invocada sob uma das suas prerrogativas mais belas – a Imaculada Conceição – viria a ser escolhida e aclamada como “Rainha” e Padroeira de Portugal (Cfr. Auto da Aclamação de N. Senhora da Conceição como Padroeira de Portugal, pelas Cortes de Lisboa, em 1646); estas devoções animaram constantemente o culto de Deus e a firme adesão aos outros deveres religiosos, que deixaram marcas profundas na história e na vida do dilecto Povo português.

Como é sabido, a Igreja, onde quer que se encontre, deseja poder servir a vocação pessoal e social dos seus membros, que são ao mesmo tempo os membros de determinada comunidade política. Com efeito, em razão da sua missão e competência, de ordem espiritual, ela não se confunde com a sociedade nem está ligada a qualquer sistema político; mas intenta ser sinal em toda a parte da transcendência da pessoa humana; o que faz, pregando a verdade evangélica e iluminando, com a sua doutrina e com o testemunho dos seus fiéis, todos os campos da actividade humana (Cfr. Gaudium et spes, 76).

Assim as relações da Nação portuguesa com a Sé de São Pedro que, com o andar dos tempos, tomariam a forma de reconhecimentos e compromissos, como se sabe (ainda há três anos atrás tive o gosto de participar na comemoração do oitavo centenário do primeiro desses reconhecimentos, na Igreja de Santo António dos Portugueses em Roma) se enquadram nesta perspectiva. Cônscia do dever que lhe é ditado pela própria missão – de ajudar os homens na busca de uma resposta às eternas perguntas que se põem, acerca do sentido da vida presente e da futura e da relação entre ambas – também aqui a Igreja procurou caminhar com o homem, no desejo de ser-lhe prestável.

A esta luz, há-de ser vista a caminhada conjunta da Igreja e de Portugal, com relações amistosas deste com a Sé de Roma, o que alguma vez lhe mereceu, do meu Predecessor Bento XIV, o apelativo de Nação “fidelissima”, na pessoa dos seus Reis (cf. Breve Apost., die 23 dec. 1748, in “Bullarium Romanum”, Venetiis, tip. Gatti, 1778, t. III, p. 1).

3. A trajectória histórica de Portugal, como aliás sucede com os demais Povos em geral, não se delinea isenta de alternativas de luz e sombra, nos diversos aspectos da vida da sua população, mas subjacente a isso permaneceram como coordenadas muitas coisas que não mudaram, nem podem mudar. A Igreja – como é sabido – acredita efectivamente, que “a chave, o centro e o fim de toda a história humana se encontram em Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre” (Gaudium et spes, 10). E Portugal globalmente, pela maioria da sua população, nas suas escolhas históricas fundamentais, optou por Cristo, Cristo redentor do homem, como parecem atestar as quinas da bandeira pátria, e a Cruz nas suas caravelas da epopeia dos descobrimentos.

É sempre Cristo a proposta da Igreja, situada no tempo e no espaço, por isso real e intimamente ligada ao género humano e à sua história, no desejo de servir o homem com a sua dignidade e com a abertura do seu espírito, na plena verdade da sua existência, do seu ser pessoal e, ao mesmo tempo, do seu ser comunitário e social (Redemptoris Hominis, 14).

Entre as vicissitudes que emergem na história e na vida de Portugal, aparece em primeiro plano o fenómeno das migrações que vem de longa data: muitos dos seus filhos que deixam a própria terra, no passado como também hoje, com dolorosas separações e momentos de incerteza, para procurarem noutras paragens possibilidades de melhorar a própria vida. A perda destes filhos, constituindo sem dúvida uma perda para este País, donde partem, como norma, representa vantagens para as terras onde se vão estabelecer.

Dos que daqui partiram, a par dos que o fizeram por motivos de sobrevivência ou outros, houve também plêiades de enamorados de ideal e de apaixonados por Cristo – os missionários portugueses – que daqui se partiram navegando, para ir “fazer Cristandade” pelos diversos continentes. E, monumento histórico disso, ainda hoje subsiste, – conforme fui informado – com o “papiar cristiano”, sinónimo de falar português, nalgumas regiões do sudeste da Ásia, uma riquíssima antroponímia, que facilmente nos faz identificar como católicos ou de ascendência católica, cristianizados pelos portugueses, muitos homens e mulheres em todas as latitudes do globo.

Estes valorosos missionários, servidores de Cristo e da sua Igreja e glória de Portugal, que, com o seu ardor, a sua dedicação desinteressada e generosa, levaram assistência espiritual a tantos irmãos espalhados pelo mundo, não deixaram também de contribuir para o seu desenvolvimento, ajudando-os a progredir na satisfação das carências fundamentais e a cultivar a dignidade da pessoa humana. Assim, ao evangelizarem a Boa-Nova da salvação, prestaram-lhes um serviço humano; e também por isso são credores da nossa admiração e reconhecimento.

4. E os portugueses que ficaram não viveram sem dificuldades a sua caminhada histórica. Mas ao longo dela, souberam dar mostras de qualidades não comuns de coragem, de capacidade de resistir e suportar provações e riscos e da perseverança, que denotam uma fibra moral e uma força espiritual que, hoje como ontem, hão-de sustentar e animar os filhos desta Nação nas lutas do presente, de fronte erguida, a olhar com pundonor e esperança o futuro.

Numa participação responsável e com a generosa contribuição de todos para o bem comum, a eliminação da pobreza, a ajuda aos marginalizados ou que se sentem desenraizados, a perspectiva de emprego para todos – especialmente para os briosos jovens desta terra – a estruturação de condições de vida, assistência e segurança, nos campos económico e social, passando pela saúde, instrução, trabalho, família e terceira idade, hão-de continuar a ser decididamente empenho colectivo de um Povo consciente dos valores característicos da sua comunidade e ufano de os testemunhar na sua vida política e social.

A consciência histórica e a fé cristã dos portugueses, não disjunta da exigência le uma relação honesta para com a verdade, como condição de liberdade autêntica, hão-de continuar a convencê-los também hoje, certamente, de que, sem excluir o legítimo pluralismo são e responsável, só o amor constrói; de que a chave para a solução dos seus problemas e da sua prosperidade também é feita de sentido humano e cristão dos valores, caldeada na justiça e temperada na solidariedade, na fraternidade e no amor entre homens-irmãos.

5. Faço votos de que, prosseguindo no seu rumo histórico, Portugal, com o seu carisma de universalidade e de fácil integração, continue a ser força para a compreensão entre todos os povos, mormente entre os que com ele têm afinidades culturais. Os emigrantes e missionários portugueses foram a todas as parte do mundo e, onde chegaram, aí tornaram amado e honrado o nome do seu País. Que isso continue a ser fonte de inspiração humana e espiritual para o seu estar-no-mundo e manter Portugal na alta estima dos seus dias mais luminosos.

Missão nobre continua a ter a “Casa Lusitana”. E oxalá que a sua herança de fé cristã, guardada e cultivada ao longo dos séculos, nas actuais expressões da sua identidade, que fez dela a “pátria linda, à beira-mar, de um povo heróico, sob a graça de Deus, a cantar...” – como diria um vosso poeta – continue a ser impulso constante para levar este nobre País a atingir um bem-estar que espelhe a felicidade de todos os portugueses, num clima de harmonia operosa, de prosperidade e de paz.

Agradeço, uma vez mais, o amável e distinto acolhimento de Vossa Excelência; e sobre todo o dilecto Povo português que o escolheu como seu Representante, invoco as mais copiosas bênçãos de Deus omnipotente e misericordioso."

Discurso do São João Paulo II aos Membros do Governo Português
Lisboa, Quarta-feira, 12 de Maio de 1982 - also in Italian & Spanish

"Senhor Primeiro Ministro, Senhor Presidente da Assembleia da República,
Senhores Ministros, Senhoras e Senhores, Excelências,
1. SINTO-ME HONRADO e grato pela oportunidade de saudar, nas pessoas de Vossas Excelências, os gestores do poder executivo e deliberativo desta nobre Nação, que acaba de acolher-me, com penhorante entusiasmo e fidalguia, nesta minha peregrinação a Fátima e visita pastoral a terras portuguesas.

Com o interesse demonstrado por esta minha visita, com deferente presença, à minha chegada, e agora neste encontro, estou persuadido de que, passando além da minha pessoa, se quis homenagear o que aqui me é dado representar como Pastor da Igreja universal; sensibilizado, quero agradecer, todas as atenções e bom acolhimento, em que pude começar a aperceber-me da conhecida religiosidade e arraigada fé cristã dos queridos portugueses. Bendito seja Deus! E, ao exprimir aqui a minha gratidão, vejo em Vossas Excelências todas e cada uma das pessoas e entidades, às quais, por motivos diversos, ela é devida.

2. Ao encontrar-me com tão selecta representação de Portugal, neste momento feliz, quereria assegurar-vos, antes de mais nada, a maior estima pela alta missão de que estais revestidos, ao serviço do bem comum de toda a Nação. Oxalá vos guie sempre, no cumprimento do vosso mandato, uma concepção do homem, com todos os seus valores e dignidade, e um desejo de servir concretamente todos e cada um dos portugueses, que vos escolheram para tal missão honrosa, que é ao mesmo tempo um compromisso.

Em vós repousam as aspirações e esperanças de querido Povo português, legitimamente ufano de uma gloriosa história vivida e sofrida, em que se exprime a sua identidade como Povo, e em que se encerram promessas e se vislumbra o potencial para construir um futuro cada vez mais dignificante, fiel à própria “alma” e sem quebra de continuidade histórica.

3. As minhas viagens, como é conhecido, têm sempre um prevalente carácter pastoral, visando finalidades apostólicas; com elas, tenho a intenção de prosseguir uma iniciativa que vem dos meus Predecessores, sobretudo do Papa Paulo VI, que Portugal teve alguma vez a alegria de receber. Sendo parte importante da minha missão como sucessor do apóstolo São Pedro, o meu desejo de presença estimulante à Igreja espalhada pelo mundo, trouxe-me hoje ao encontro da Igreja que está em Portugal, onde a comunidade católica representa a grande maioria da população. Peregrinando em nome e por amor de Cristo, Redentor do homem e centro do cosmos e da história, nestas viagens sinto-me sempre portador de uma mensagem sobre o homem, com toda a sua verdade.

Ao desempenhar a própria missão, de ordem espiritual, e sempre desejosa de manter o maior respeito pelas necessárias e ligítimas instituições de ordem temporal, a Igreja nunca deixa de apreciar e alegrar-se com tudo aquilo que favorece a vivência da verdade integral do homem; não pode não congratular-se com os esforços que se envidam para tutelar e defender os direitos e liberdades fundamentais de cada pessoa humana; e rejubila e agradece ao Senhor da vida e da história, quando planificações e programas – de carácter político, económico, social e cultural – são inspirados no respeito e amor da dignidade do homem, em demanda da “civilização do amor”.

4. Com esta sua posição e, quando é o caso, regozijo, pela bem sucedida comunhão de esforços, para fazer desaparecer do seio das sociedades e da inteira família humana desequilíbrios que tornam precária a convivência, perturbações da ordem que criam a angústia nos espíritos e carências de várias espécies, que deprimem e, não raro, aviltam e rebaixam aqueles que as sofrem, a Igreja sabe dar valor à tarefa de quem tem que suscitar, promover ou estimular os processos para superar essas situações. A par da competência e da boa vontade, não é menos para apreciar a destreza em levar a bom porto, por entre pressões de “sinal oposto”, esses processos resolutórios.

Na sua fidelidade à visão do homem que lhe foi legada pelo seu Senhor e Mestre, Jesus Cristo, a Igreja não deixa de preconizar aquilo que possa servir a grande causa do homem. Abstraindo de aspectos técnicos de reformas ou transformações, ela vive a persuasão e insiste que é na mente, no coração e na vontade livre dos homens que, primeiro que tudo, se há-de dar uma mudança, para aceitação da novidade a introduzir para o bem comum, que só poderá ser uma melhoria que a todos contemple.

Por isso é imprescindível uma formação continuada dos homens, em humanidade e no sentido de corresponsabilidade, no conduzir os próprios destinos desde a instrução e a informação a todos os níveis, – passando pela chamada “qualidade” de vida, pela cultura e pelo quotidiano da existência – até à participação, em espaços de legítima liberdade e pluralismo, iluminados sempre por indispensável compreensão recíproca, a enriquecer a busca em comum do maior bem para todos.

5. Sei que estais cônscios de que, embora subsistindo, e sendo para incrementar constantemente na sociedade, a corresponsabilidade de todos, as iniciativas e a direcção humana racional dos processos vitais, dependem em boa parte dos que estão investidos de funções de chefia; cônscios de que isenção e discernimento hão-de andar de mãos dadas, para banir, no exercício dessa missão de serviço, perniciosas confusões: da verdade do homem, com visões parciais, decepantes ou desviadas da sua realidade total; da autêntica solidariedade humana, com manipulações da mesma, que a si próprias se denunciam pelos interesses que visam ou aninham, com menosprezo do homem.

Senhores:
Será sempre grato ao coração de todos os homens de boa vontade tudo o que se fizer pela nobilíssima causa do homem:
– para facultar a cada homem ser cada vez mais homem, no esforço de superar a divisão que sofre em si mesmo, dado que se sente, por misérias e frustrações de desejos e aspirações a uma vida superior, e por outro lado, coarctado pelas múltiplas necessidades da sua existência temporal;
– para ajudar os mais pobres, os marginalizados e os atingidos por misérias e frustrações de diversas espécies, que por vezes são imerecidas e não lhes permitem ser protagonistas da própria história pessoal;
– para assistir aqueles que se vêem forçados a escolher o “mal necessário” da emigração, a fim de conseguirem uma melhoria na vida pessoal, familiar e social, sem sofrerem danos de maior no sentido moral;
– para permitir a cada um abraçar a própria vocação e, optando pela família, poder respeitar a sacralidade de todos os seus valores e todas as suas funções, na procriação e educação da prole;
– para evitar nos jovens, sobretudo nos deserdados e menos favorecidos, a perca da dignidade pessoal e de sentido dos valores morais, desviando-se por caminhos à margem da sociedade, onde se coligam a pobreza e indigência com o aviltamento e o crime, quando não chegam aos extremos da revolta e da violência deletérea;
– para proporcionar a todos trabalho e minorar os inconvenientes da urbanização que, quando se dá em crescimento desproporcionado, por motivos vários, deixa de ser à medida do homem;
– para, enfim, facultar a cada pessoa humana o respeito dos direitos de Deus, criador de todas as coisas e senhor da história, o Qual – seja-me permitido proclamá-lo neste momento – deu em Cristo a “chave” do “mistério” que o homem representa para o homem.

Por tudo isto é imensa, mas maravilhosa a vossa tarefa; é nobre a vossa missão e merece todo o empenho, brio e entusiasmo. Trata-se do bem comum; trata-se de tornar uma Nação cada vez maior e de fazer da Pátria uma morada agradável para a própria gente. O êxito dos chefes e dos gestores de poder – é uma ideia que repito – é o bem-estar, a felicidade, a paz e a alegria dos servidos pelo poder.

Faço votos de todo o bem para Vossas Excelências; e reiterando os meus agradecimentos, desejo que vejais os frutos da vossa missão e compromisso de servir, num Portugal cada vez mais animado por um ideal de relações autenticamente humanas e fraternas e mais próspero, com a protecção de Nossa Senhora de Fátima e as bênção de Deus Omnipotente e Misericordioso."

13 de Maio de 1982

Papa João Paulo II - Missa no Santuário de Nossa Senhora do Rosário
- Omelia in italiano

1. “E a partir daquele momento, o discípulo recebeu-A em sua casa” (Io 19, 27)

Com estas palavras termina o Evangelho da Liturgia de hoje, aqui em Fátima. O nome do discípulo era João. Precisamente ele, João, filho de Zebedeu, apóstolo e evangelista, ouviu do alto da Cruz as palavras de Cristo: “Eis a tua Mãe”. Anteriormente, Jesus tinha dito à própria Mãe: “Senhora, eis o Teu filho”.

Este foi um testamento maravilhoso.

Ao deixar este mundo, Cristo deu a Sua Mãe um homem que fosse para Ela como um filho: João. A Ela o confiou. E, em consequência desta doação e deste acto de entrega, Maria tornou-se mãe de João. A Mãe de Deus tornou-se Mãe do homem.

E, a partir daquele momento, João “recebeu-A em sua casa”. João tornou-se também amparo terreno da Mãe de seu Mestre; é direito e dever dos filhos, efectivamente, assumir o cuidado da mãe. Mas acima de tudo, João tornou-se por vontade de Cristo o filho da Mãe de Deus. E, em João, todos e cada um dos homens d’Ela se tornaram filhos.

2. “Recebeu-A em sua casa” – esta frase significa, literalmente, na sua habitação.

Uma manifestação particular da maternidade de Maria em relação aos homens são os lugares, em que Ela se encontra com eles; as casas onde Ela habita; casas onde se sente uma presença toda particular da Mãe.

Estes lugares e estas casas são numerosíssimos. E são de uma grande variedade: desde os oratórios nas habitações e dos nichos ao longo das estradas, onde sobressai luminosa a imagem da Santa Mãe de Deus, até às capelas e às igrejas construídas em Sua honra. Há porém, alguns lugares, nos quais os homens sentem particularmente viva a presença da Mãe. Não raro, estes locais irradiam amplamente a sua luz e atraem a si a gente de longe. O seu círculo de irradiação pode estender-se ao âmbito de uma diocese, a uma nação inteira, por vezes a vários países e até aos diversos continentes. Estes lugares são os santuários marianos.

Em todos estes lugares realiza-se de maneira admirável aquele testamento singular do Senhor Crucificado: aí, o homem sente-se entregue e confiado a Maria e vem para estar com Ela, como se está com a própria Mãe. Abre-Lhe o seu coração e fala-Lhe de tudo: “recebe-A em sua casa”, dentro de todos os seus problemas, por vezes difíceis. Problemas próprios e de outrem. Problemas das famílias, das sociedades, das nações, da humanidade inteira.

3. Não sucede assim, porventura, no santuário de Lourdes na França? Não é igualmente assim, em Jasna Góra em terras polacas, no santuário do meu País, que este ano celebra o seu jubileu dos seiscentos anos?

Parece que também lá, como em tantos outros santuários marianos espalhados pelo mundo, com uma força de autenticidade particular, ressoam estas palavras da Liturgia do dia de hoje:
“Tu és a honra do nosso povo” (Iudit 15,10); e também aquelas outras:
“Perante a humilhação da nossa gente”,
“... aliviaste o nosso abatimento, com a tua rectidão, na presença do nosso Deus”(Iudt 13,20).

Estas palavras ressoam aqui em Fátima quase como eco particular das experiências vividas não só pela Nação portuguesa, mas também por tantas outras nações e povos que se encontram sobre a face da terra; ou melhor, elas são o eco das experiências de toda a humanidade contemporânea, de toda a família humana.

4. Venho hoje aqui, porque exactamente neste mesmo dia do mês, no ano passado, se dava, na Praça de São Pedro, em Roma, o atentado à vida do Papa, que misteriosamente coincidia com o aniversário da primeira aparição em Fátima, a qual se verificou a 13 de Maio de 1917.

Estas datas encontraram-se entre si de tal maneira, que me pareceu reconhecer nisso um chamamento especial para vir aqui. E eis que hoje aqui estou. Vim para agradecer à Divina Providência, neste lugar, que a Mãe de Deus parece ter escolhido de modo tão particular.

“Misericordiae Domini, quia non sumus consumpti” – Foi graças ao Senhor que não fomos aniquilados (Lam 3, 22) – repito uma vez mais com o Profeta.

Vim, efectivamente, sobretudo para aqui proclamar a glória do mesmo Deus:
“Bendito seja o Senhor Deus, Criador do Céu e da Terra”, quero repetir com as palavras da Liturgia de hoje (Iudt 13,18).

E ao Criador do Céu e da Terra elevo também aquele especial hino de glória, que é Ela própria: a Mãe Imaculada do Verbo Encarnado:

“Abençoada sejas, minha filha, pelo Deus Altíssimo / Mais do que todas as mulheres sobre a Terra... / A confiança que tiveste não será esquecida pelos homens, / E eles hão-de recordar sempre o poder de Deus. / Assim Deus te enalteça eternamente” (Ibid 13, 18-20).

Na base deste canto de louvor, que a Igreja entoa com alegria, aqui como em tantos lugares da terra, está a incomparável escolha de uma filha do género humano para ser Mãe de Deus.
E por isso seja sobretudo adorado Deus: Pai, Filho, e Espírito Santo.

Seja bendita e venerada Maria, protótipo da Igreja, enquanto “habitação da Santíssima Trindade”.

5. A partir daquele momento em que Jesus, ao morrer na Cruz, disse a João: “Eis a tua Mãe”, e a partir do momento em que o discípulo “A recebeu em sua casa”, o mistério da maternidade espiritual de Maria teve a sua realização na história com uma amplidão sem limites. Maternidade quer dizer solicitude pela vida do filho. Ora se Maria é mãe de todos os homens, o seu desvelo pela vida do homem reveste-se de um alcance universal. A dedicação de qualquer mãe abrange o homem todo. A maternidade de Maria tem o seu início nos cuidados maternos para com Cristo.

Em Cristo, aos pés da Cruz, Ela aceitou João e, nele, aceitou todos os homens e o homem totalmente. Maria a todos abraça, com uma solicitude particular, no Espírito Santo. É Ele, efectivamente, “Aquele que dá a vida”, como professamos no Credo. É Ele que dá a plenitude da vida, com abertura para a eternidade.

A maternidade espiritual de Maria é, pois, participação no poder do Espírito Santo, no poder d’Aquele “que dá a vida”. E é ao mesmo tempo, o serviço humilde d’Aquela que diz de si mesma: “Eis a serva do Senhor” (Luc 1, 38).

À luz do mistério da maternidade espiritual de Maria, procuremos entender a extraordinária mensagem que, daqui de Fátima, começou a ressoar pelo mundo todo, desde o dia 13 de Maio de 1917, e que se prolongou durante cinco meses, até ao dia 13 de Outubro do mesmo ano.

6. A Igreja ensinou sempre, e continua a proclamar, que a revelação de Deus foi levada à consumação em Jesus Cristo, que é a plenitude da mesma, e que “não se há-de esperar nenhuma outra revelação pública, antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo.” A mesma Igreja aprecia e julga as revelações privadas segundo o critério da sua conformidade com aquela única Revelação pública.

Assim, se a Igreja aceitou a mensagem de Fátima, é sobretudo porque esta mensagem contém uma verdade e um chamamento que, no seu conteúdo fundamental, são a verdade e o chamamento do próprio Evangelho.

“Convertei-vos (fazei penitência), e acreditai na Boa Nova (Mc 1, 15): são estas as primeiras palavras do Messias dirigidas à humanidade. E a mensagem de Fátima, no seu núcleo fundamental, é o chamamento à conversão e à penitência, como no Evangelho. Este chamamento foi feito nos inícios do século vinte e, portanto, foi dirigido, de um modo particular a este mesmo século. A Senhora da mensagem parecia ler, com uma perspicácia especial, os “sinais dos tempos”, os sinais do nosso tempo.

O apelo à penitência é um apelo maternal; e, ao mesmo tempo, é enérgico e feito com decisão. A caridade que “se congratula com a verdade” (1Cor 13, 6) sabe ser clara e firme. O chamamento à penitência, como sempre anda unido ao chamamento à oração. Em conformidade com a tradição de muitos séculos, a Senhora da mensagem de Fátima indica o terço – o rosário – que bem se pode definir “a oração de Maria”: a oração na qual Ela se sente particularmente unida connosco. Ela própria reza connosco. Com esta oração do terço se abrangem os problemas da Igreja, da Sé de Pedro, os problemas do mundo inteiro. Além disto, recordam-se os pecadores, para que se convertam e se salvem, e as almas do Purgatório.

As palavras de mensagem foram dirigidas a crianças, cuja idade ia dos sete aos dez anos. As crianças, como Bernadette de Lourdes, são particularmente privilegiadas nestas aparições da Mãe de Deus. Daqui deriva o facto de também a sua linguagem ser simples, de acordo com a capacidade de compreenção infantil. As criancinhas de Fátima tornaram-se as interlocutoras da Senhora da mensagem e também as suas colaboradoras. Uma delas ainda está viva.

7. Quando Jesus disse do alto da Cruz: “Senhora, eis o Seu filho” (Io 19, 26), abriu, de maneira nova, o Coração da Sua Mãe, o coração Imaculado, e revelou-Lhe a nova dimensão do amor e o novo alcance do amor a que Ela fora chamada, no Espírito Santo, em virtude do sacrifício da Cruz.

Nas palavras da mensagem de Fátima parece-nos encontrar precisamente esta dimensão do amor materno, o qual com a sua amplitude, abrange todos os caminhos do homem em direcção a Deus: tanto aqueles que seguem sobre a terra, como aqueles que, através do Purgatório, levam para além da terra. A solicitude da Mãe do Salvador, identifica-se com a solicitude pela obra da salvação: a obra do Seu Filho. É solicitude pela salvação, pela eterna salvação de todos os homens. Ao completarem-se sessenta e cinco anos, depois daquele dia 13 de Maio de 1917 é difícil não descobrir como este amor salvífico da Mãe abraça na sua amplitude, de um modo particular, o nosso século.

À luz do amor materno, nós compreendemos toda a mensagem de Nossa Senhora de Fátima.

Aquilo que se opõe mais directamente à caminhada do homem em direcção a Deus é o pecado, o perseverar no pecado, enfim, a negação de Deus. O programado cancelamento de Deus do mundo do pensamento humano. A separação d’Ele de toda a actividade terrena do homem. A rejeição de Deus por parte do homem.

Na verdade, a salvação eterna do homem somente em Deus se encontra. A rejeição de Deus por parte do homem se se tornar definitiva, logicamente conduz à rejeição do homem por parte de Deus, à condenação.

Poderá a Mãe, que deseja a salvação de todos os homens, com toda a força do seu amor que alimenta no Espírito Santo, poderá Ela ficar calada acerca daquilo que mina as próprias bases desta salvação? Não, não pode!

Por isso, a mensagem de Nossa Senhora de Fátima, tão maternal, se apresenta ao mesmo tempo tão forte e decidida. Até parece severa. É como se falasse João Baptista nas margens do rio Jordão. Exorta à penitencia. Adverte. Chama à oração. Recomenda o terço, o rosário.

Esta mensagem é dirigida a todos os homens. O amor da Mãe do Salvador chega até onde quer que se estenda a obra da salvação. E objecto do Seu desvelo são todos os homens da nossa época e, ao mesmo tempo, as sociedades, as nações e os povos. As sociedades ameaçadas pela apostasia, ameaçadas pela degradação moral. A derrocada da moralidade traz consigo a derrocada das sociedades.

8. Cristo disse do alto da Cruz: “Senhora, eis o Teu filho”. E, com tais palavras, abriu, de um modo novo, o Coração da Sua Mãe.

Pouco depois, a lança do soldado romano trespassou o lado do Crucificado. Aquele coração trespassado tornou-se o sinal da redenção, realizada mediante a morte do Cordeiro de Deus.

O Coração Imaculado de Maria aberto pelas palavras – “Senhora, eis o Teu Filho” – encontra-se espiritualmente com o Coração do Filho trespassado pela lança do soldado. O Coração de Maria foi aberto pelo mesmo amor para com o homem e para com o mundo com que Cristo amou o homem e o mundo, oferecendo-Se a Si mesmo por eles, sobre a Cruz, até àquele golpe da lança do soldado.

Consagrar o mundo ao Coração Imaculado de Maria significa aproximar-nos, mediante a intercessão da Mãe, da própria Fonte da Vida, nascida no Gólgota. Este Manancial escorre ininterruptamente, dele brotando a redenção e a graça. Nele se realiza continuamente a reparação pelos pecados do mundo. Tal Manancial é sem cessar Fonte de vida nova e de santidade.

Consagrar o mundo ao Imaculado Coração da Mãe significa voltar de novo junto da Cruz do Filho. Mais quer dizer, ainda: consagrar este mundo ao Coração trespassado do Salvador, reconduzindo-o à própria fonte da Redenção. A Redenção é sempre maior do que o pecado do homem e do que “o pecado do mundo”. A força da Redenção supera infinitamente toda a espécie de mal, que está no homem e no mundo.

O Coração da Mãe está conscio disso, como nenhum outro coração em todo o cosmos, visível e invisível.

E para isso faz a chamada.

Chama não somente à conversão. Chama-nos a que nos deixemos auxiliar por Ela, como Mãe, para voltarmos novamente à fonte da Redenção.

9. Consagrar-se a Maria Santíssima significa recorrer ao seu auxílio e oferecermo-nos a nós mesmos e oferecer a humanidade Àquele que é Santo, infinitamente Santo; valer-se do seu auxílio – recorrendo ao seu Coração de Mãe aberto junto da Cruz ao amor para com todos os homens e para com o mundo inteiro – para oferecer o mundo, e o homem, e a humanidade, e todas as nações Àquele que é infinitamente Santo. A santidade de Deus manifestou-se na redenção do homem, do mundo, da inteira humanidade e das nações: redenção esta que se realizou mediante o sacrifício da Cruz.“ Por eles, Eu consagro-me a Mim mesmo”, tinha dito Jesus” (Io 17, 19).

O mundo e o homem foram consagrados com a potência da Redenção. Foram confiados Àquele que é infinitamente Santo. Foram oferecidos e entregues ao próprio Amor, ao Amor misericordioso.

A Mãe de Cristo chama-nos e exorta-nos a unir-nos à Igreja do Deus vivo, nesta consagração do mundo, neste acto de entrega mediante o qual o mesmo mundo, a humanidade, as nações e todos e cada um dos homens são oferecidos ao Eterno Pai, envoltos com a virtude da Redenção de Cristo. São oferecidos no Coração do Redentor trespassado na Cruz.

A Mãe do Redentor chama-nos, convida-nos e ajuda-nos para nos unirmos a esta consagração, a este acto de entrega do mundo. Então encontrar-nos-emos, de facto, o mais próximo possível do Coração de Cristo trespassado na Cruz.

10. O conteúdo do apelo de Nossa Senhora de Fátima está tão profundamente radicado no Evangelho e em toda a Tradição, que a Igreja se sente interpelada por essa mensagem.

Ela respondeu à interpelação mediante o Servo de Deus Pio XII (cuja ordenação episcopal se realizara precisamente a 13 de Maio de 1917), o qual quis consagrar ao Imaculado Coração de Maria o género humano e especialmente os Povos da Rússia. Com essa consagração não terá ele, porventura, correspondido à eloquência evangélica do apelo de Fátima?

O Concílio Vaticano II, na Constituição dogmática sobre a Igreja “Lumen Gentium” e na Constituição pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo “Gaudium et Spes” explicou amplamente as razões dos laços que unem a Igreja com o mundo de hoje. Ao mesmo tempo os seus ensinamentos sobre a presença especial de Maria no mistério de Cristo e da Igreja, maturaram no acto com que Paulo VI, ao chamar a Maria também Mãe da Igreja, indicava de maneira mais profunda o carácter da sua união com a mesma Igreja e da Sua solicitude pelo mundo, pela humanidade, por cada um dos homens e por todas as nações: a sua maternidade.

Deste modo, foi ainda mais aprofundada a compreensão do sentido da entrega, que a Igreja é chamada a fazer, recorrendo ao auxílio do Coração da Mãe de Cristo e nossa Mãe.

11. E como é que se apresenta hoje diante da Santa Mãe que gerou o Filho de Deus, no seu Santuário de Fátima, João Paulo II, sucessor de Pedro e continuador da obra de Pio, de João e de Paulo e particular herdeiro do Concílio Vaticano II?

Apresenta-se com ansiedade, a fazer a releitura, daquele chamamento materno à penitência e à conversão, daquele apelo ardente do Coração de Maria, que se fez ouvir aqui em Fátima, há sessenta e cinco anos. Sim, relê-o, com o coração amargurado, porque vê quantos homens, quantas sociedades e quantos cristãos foram indo em direcção oposta àquela que foi indicada pela mensagem de Fátima. O pecado adquiriu assim um forte direito de cidadania e a negação de Deus difundiu-se nas ideologias, nas concepções e nos programas humanos!

E precisamente por isso, o convite evangélico à penitência e à conversão, expresso com as palavras da Mãe, continua ainda actual. Mais actual mesmo do que há sessenta e cinco anos atrás. E até mais urgente. É por isso também que tal convite será o assunto do próximo Sínodo dos Bispos, no ano que vem, Sínodo para o qual já nos estamos a preparar.

O sucessor de Pedro apresenta-se aqui também como testemunha dos imensos sofrimentos do homem, como testemunha das ameaças quase apocalípticas, que pesam sobre as nações e sobre a humanidade. E procura abraçar esses sofrimentos com o seu fraco coração humano, ao mesmo tempo que se põe bem diante do mistério do Coração: do Coração da Mãe, do Coração Imaculado de Maria.

Em virtude desses sofrimentos, com a consciência do mal que alastra pelo mundo e ameaça o homem, as nações e a humanidade o sucessor de Pedro apresenta-se aqui com uma maior na redenção do mundo: fé naquele Amor salvífico que é sempre maior, sempre mais forte do que todos os males.

Assim, se por um lado o coração se confrange, pelo sentido elo pecado do mundo, bem como pela série de ameaças que aumentam no mundo, por outro lado, o mesmo coração humano sente-se dilatar com a esperança, ao pôr em prática uma vez mais aquilo que os meus Predecessores já fizeram: entregar e confiar o mundo ao Coração da Mãe, confiar-Lhe especialmente aqueles povos, que, de modo particular, tenham necessidade disso. Este acto equivale a entregar e a confiar o mundo Àquele que é Santidade infinita. Esta Santidade significa redenção, significa amor mais forte do que o mal. Jamais algum “pecado do mundo” poderá superar este Amor.

Uma vez mais. Efectivamente, o apelo de Maria não é para uma vez só. Ele continua aberto para as gerações que se renovam, para ser correspondido de acordo com os “sinais dos tempos” sempre novos. A ele se deve voltar incessantemente. Há que retomá-lo sempre de novo.

12. Escreve o Autor do Apocalipse:

“Vi depois a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do Céu, da presença de Deus, pronta como noiva adornada para o seu esposo. E, do trono, ouvi uma voz potente que dizia: Eis a morada de Deus entre os homens. Deus há-de morar entre eles: eles mesmos serão o Seu povo e Ele próprio – Deus-com-eles – será o Seu Deus” (Apoc 21, 2ss).

A Igreja vive desta fé.

Com tal fé caminha o Povo de Deus.

“A morada de Deus entre os homens” já está sobre a terra.

E nela está o Coração da Esposa e da Mãe, Maria Santíssima, adornado com a gema da Imaculada Conceição: o Coração da Esposa e da Mãe, aberto junto da Cruz pela palavra do Filho, para um novo e grande amor do homem e do mundo. O Coração da Esposa e da Mãe, cônscio de todos os sofrimentos dos homens e das sociedades sobre a face da terra.

O Povo de Deus é peregrino pelos caminhos deste mundo na direcção escatológica. Está em peregrinação para a eterna Jerusalém, para a “morada de Deus entre os homens”.

Lá, onde Deus “há-de enxugar-lhes dos olhos todas as lágrimas; a morte deixará de existir, e não mais haverá luto, nem clamor, nem fadiga. O que havia anteriormente desapareceu” (Cf Apoc 21, 4).

Mas “o que havia anteriormente” ainda perdura. E é isso precisamente que constitui o espaço temporal da nossa peregrinação.

Por isso, olhemos para “Aquele que está sentado no trono” que diz: “Vou renovar todas as coisas.”

E juntamente com o Evangelista e Apóstolo procuremos ver com os olhos da fé “o novo céu e a nova terra”, porque o “primeiro céu e a primeira terra” já passaram...

Entretanto, até agora, “o primeiro céu e a primeira terra” continuam, estando sempre à nossa volta e dentro de nós. Não podemos ignorá-lo. Isso permite-nos, no entanto reconhecer que graça imensa foi concedida ao homem quando no meio deste peregrinar, no horizonte da fé dos nossos tempos, se acendeu esse “Sinal grandioso: uma Mulher”!

Sim, verdadeiramente podemos repetir: “Abençoada sejas, filha, pelo Deus altíssimo, mais que todas as mulheres sobre a Terra!

... Procedendo com rectidão, na presença do nosso Deus,
... Aliviaste o nosso abatimento”.

Verdadeiramente, Bendita sois Vós!

Sim, aqui e em toda a Igreja, no coração de cada um dos homens e no mundo inteiro: sede bendita ó Maria, nossa Mãe dulcíssima!

14 de maio de 1982 - Lisboa

Papa João Paulo II - Missa para os Jovens
- Omelia in italiano

"O Reino de Deus está próximo!

Sim! “Dizei a todos: está próximo de vós o Reino de Deus!” (Luc 10, 9).

Foi com estas palavras que Jesus Cristo, ao enviar em missão os setenta e dois discípulos, lhes recomendou que anunciassem a Mensagem, como acabámos de ouvir no Evangelho de hoje.

Mas estas palavras são dirigidas também aos cristãos de todos os tempos: a nós, portanto, que estamos aqui reunidos em nome do Senhor, em continuidade com os discípulos que as ouviram directamente.

São dirigidas especialmente a vós, jovens, que aqui vos encontrais, esta tarde em tão grande número, cheios de entusiasmo e alegria, manifestando a vossa disponibilidade a Cristo e o vosso desejo de construir um mundo mais humano e cristão. Vós sois depositários desta grande esperança da humanidade, da Igreja e do Papa. Deus deu-me a graça da amar muito os jovens.

Por isso, gostaria de falar-vos como um amigo fala ao seu amigo, com cada um individualmente, olhos nos olhos, de coração a coração. “O Reino de Deus está próximo!”. E quase me atreveria a dizer: estas palavras são dirigidas especialmente a vós jovens portugueses, filhos de um povo de missionários que, por todo o mundo, levaram essa mesma mensagem, como acentuou o Senhor Cardeal Patriarca, Dom António Ribeiro.

Obrigado, Senhor Cardeal, pelas suas palavras. Elas confortam-me e tomo-as como promessa de continuidade, ao retribuir, a todos cujos sentimentos interpretou, as saudações. E, nesta hora, rendo homenagem de gratidão, em nome de toda a Igreja, à grande gesta evangelizadora de Portugal missionário.

O Reino de Deus está verdadeiramente próximo! Aproximou-se do homem de modo definitivo. Está entre nós e está dentro de nós.

A proximidade do Reino de Deus reside, antes de mais, no facto de Deus ter vinho e ter assumido a natureza humana. Está próximo em Cristo; está próximo por meio de Cristo. N’Ele, com efeito, o Reino está tão perto de nós, que, em certo sentido, se torna difícil imaginar uma aproximação maior e mais íntima. Poderia Deus estar mais próximo do homem do que fazendo-Se Homem?

Estando assim tão próximo, em Cristo, nosso Senhor e Salvador, o Reino de Deus está sempre diante do homem. É proposto aos homens, como uma missão a realizar, uma meta a alcançar. Nas diversas dimensões da sua existência, os homens podem, pois, aproximar-se dele ou dele afastar-se. Antes de mais, podem chegar a alcançá-lo em si próprios, e realizá-lo dentro de si.

Mas podem também perdê-lo de vista, desviar-se da sua perspectiva. Podem até actuar contra ele. Podem mesmo propender para afastá-lo do homem; podem afastar o homem dele, e subtrair-lho.

E no entanto, Cristo veio ao mundo para introduzir os homens no Reino de Deus, para inserir o Reino nos corações dos homens e no meio deles. Mais: Cristo confiou mesmo este Reino aos homens. Chamou-os para o trabalho pelo Reino de Deus. E este trabalho tem o nome de evangelização.

2. A palavra “evangelização” vem de “Evangelho”, que significa “Boa Nova”. O Reino de Deus constrói-se sobre este fundamento da Boa Nova. Mais ainda: ele mesmo é Boa Nova. É o Anúncio da salvação definitiva do homem. E aqui, poder-se-ia perguntar: o que é a “salvação”?

Detenhamo-nos nas palavras de Isaías, ouvidas na primeira leitura da Santa Missa de hoje:
“O espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor me ungiu. Enviou-me a levar a boa nova aos que sofrem, a curar os de coração triste, a anunciar a libertação aos cativos e aos prisioneiros a liberdade, a proclamar um ano de graça do Senhor” (Is 61, 1-2).

Estas palavras do Profeta permaneceram muitos séculos à espera do momento de serem lidas, na sinagoga de Nazaré, por Aquele que era tido como o “Filho do Carpinteiro”: Jesus de Nazaré. E Ele, depois de as ler, disse: “cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir com os vossos ouvidos” (Luc 4, 21).

As palavras de Isaías, que Jesus de Nazaré tomaria como programa da sua missão, contêm precisamente a boa nova acerca da salvação.

O que é pois a salvação? É a vitória do bem sobre o mal, realizada no homem, em todas as dimensões da sua existência. A própria superação do mal já tem um carácter salvífico. A forma definitiva da salvação consistirá para o homem em libertar-se completamente do mal e em alcançar a plenitude do bem. Esta plenitude chama-se e é de facto a salvação eterna. Realiza-se no Reino de Deus como uma realidade escatológica de vida eterna. É uma realidade do “tempo futuro” que, mediante a cruz de Cristo, se iniciou na sua Ressurreição.

Todos os homens são chamados à Vida eterna. São chamados à salvação.

Tendes consciência disto? Tendes consciência disto vós, jovens meus amigos: que todos os homens estão chamados a viver com Deus e que, sem Ele, perdem a chave do “mistério” de si mesmos?

3. Esta chamada à salvação é trazida por Cristo. Ele tem para o homem “palavras de vida eterna” (Io 6, 68); e dirige-se ao homem tal qual é, situado em circunstâncias muito variadas: dirige-se ao homem concreto que vive na terra. Dirige-se particularmente ao homem que sofre, no corpo ou na alma.

Ele vem, como ouvimos na primeira leitura, a “consolar os que choram... a dar aos que estão tristes uma coroa em vez de cinzas, óleo de alegria em vez de luto, glória em vez de desespero” (Is 61, 2-3).

Mas dirige-se também a vós, jovens!

Sim, a vós jovens: porque no vosso espírito está impressa, de modo particular, a problemática essencial da salvação, com todas as suas esperanças e tensões, sofrimentos e vitórias.

É sabido quanto vós sois sensíveis à tentação entre o bem e o mal, que existe no mundo e em vós próprios. No íntimo de vós mesmos, sofreis ao ver o triunfo da mentira e da injustiça; sofreis, por vos sentirdes incapazes de fazer triunfar a verdade e a justiça; sofreis, por vos descobrirdes, ao mesmo tempo, generosos e egoístas. Desejaríeis servir e colaborar sempre com as iniciativas em favor dos oprimidos, mas... sentis-vos traídos por tantas coisas e aliciados por outras que vos quebram as asas. Espontaneamente sois levados a rejeitar o mal e a desejar o bem. Mas, algumas vezes tendes dificuldade em ver e em aceitar que para chegar ao bem é preciso passar pela renúncia, o esforço, a luta, a cruz; sucedeu com aquele jovem que, desejando a perfeição e querendo seguir Jesus, não conseguia compreender e aceitar que era necessário renunciar aos bens materiais.

Contudo, caros jovens, para além destas tensões, possuís uma aptidão quase co-natural para evangelizar. Porque a evangelização não se faz sem entusiasmo juvenil, sem juventude no coração, sem um conjunto de qualidades em que a juventude é pródiga: alegria, esperança, transparência, audácia, criatividade, idealismo... Sim, a vossa sensibilidade e a vossa generosidade espontânea, a tendência para tudo o que é belo, tornam cada um de vós um “aliado natural” de Cristo. Para mais, só em Cristo encontrareis resposta aos próprios problemas e inquietações. E vós sabeis porquê: Ele foi o homem que mais amou; e deixou-nos um “código” do amor, o seu Evangelho que, lido pelo Concílio, “... proclama a liberdade dos filhos de Deus; rejeita toda a escravidão, derivada, em última análise, do pecado; respeita integralmente a dignidade da consciência e a sua livre decisão; sem cessar, recorda que todos os talentos humanos devem redundar em serviço de Deus e dos homens; e, finalmente, a todos recomenda a caridade.”

No fim de contas, só o amor salva. E repito: a problemática da salvação – isto é, a vitória do bem sobre o mal – é um tema fundamental da vida humana. A vida do homem desenrola-se inteiramente na órbita desse apelo. Por isso, o tema “salvação” é daqueles que estão inscritos, de modo particular, na alma dos jovens. Importa saber fazer a sua leitura com perspicácia e desenvolvê-lo honestamente, em vida e obras.

4. A salvação é uma missão. Cristo veio para nos dizer que a salvação – isto é, o Reino de Deus – é uma missão. Veio também para nos ensinar como a devemos desempenhar.

Aos setenta e dois discípulos, que envia “dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares onde Ele havia de ir”, Cristo diz: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos Pedi, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe” (Luc 10, 2).

A Igreja recorda-nos estas palavras frequentemente. Recorda-as, de modo particular, para nos convidar à oração pelas vocações sacerdotais e religiosas, pelas vocações missionárias.

Mas, caros jovens, não basta rezar para que o Senhor desperte vocações. É preciso estar pessoalmente atento ao apelo que Ele quiser dirigir-vos; é preciso que não falte a coragem para responder generosamente a esse chamamento. As comunidades cristãs necessitam de sacerdotes que as alimentem com a Palavra e o Corpo de Cristo, precisam da vida religiosa, que seja sinal de Deus e oblação a Deus em benefício dos irmãos. E vós não desejareis prolongar a presença do Senhor no mundo de hoje, responder aos pequeninos que buscam quem lhes parta o pão e não encontram?

Falar da evangelização, recordar a tarefa missionária aqui, em Portugal, é evocar um dos aspectos mais positivos da história do vosso país. Daqui saíram tantos missionários, vossos antepassados, que foram levar a Boa Nova da salvação o outros homens. Do Oriente ao Ocidente (Japão, Índia, África, Brasil...); e ainda hoje são visíveis os frutos dessa missionação. E muitos destes missionários eram jovens como vós. Como não lembrar, entre outros, aqui em Lisboa, o exemplo de São João de Brito, jovem lisboeta, que, deixando a vida fácil da corte, partiu para a Índia, a anunciar o evangelho da salvação aos mais pobres e desprotegidos, identificando-se com eles, e selando a sua fidelidade a Cristo e aos irmãos com o testemunho do martírio?

Rapazes e raparigas de Portugal: levantai os olhos e vede “a seara loirejante para a ceifa”, à espera de braços para o “trabalho”.

5. Falámos do sacerdócio, da vida religiosa e do trabalho missionário, como formas de vocação que têm importância particular em ordem à evangelização, e pelas quais a Igreja reza de modo especial. Sente-se chamada a esta oração pelas palavras do Senhor: “pedi, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe” (Luc 10, 2).

Mas as palavras do Senhor Jesus acerca da “messe grande” e dos trabalhadores, devemos entendê-las num sentido ainda mais fundamental e, ao mesmo tempo, mais amplo do que o indicado pelos géneros de vocações na Igreja que acabamos de mencionar.

Falando da “messe”, da “messe grande” e dos “trabalhadores”, Cristo quer, antes de mais, fazer compreender aos seus ouvintes que o “Reino de Deus”, isto é, a “salvação”, é a grande tarefa de todo o homem. Cada pessoa deve sentir-se “trabalhador”, protagonista da própria salvação: o trabalhador que é chamado para a “messe”. Cada pessoa deve “ganhar” honestamente esta salvação. E isto é essencial também para toda a obra da evangelização.

“Messe” que dizer, portanto, realizar em si próprio a missão de evangelizar. Cada pessoa é chamada pela palavra de Deus a este género de trabalho; é chamado em especial cada jovem – rapaz ou rapariga. Não podemos evangelizar os outros, se primeiro não estamos nós evangelizados. Não podemos colaborar na salvação dos outros, se primeiro não entramos nós pelos caminho da salvação.

Encetámos esta caminhada da salvação no dia do nosso Baptismo, quando, renunciando ao mal, escolhemos o bem, em Jesus Cristo; começamos a viver a Vida Nova, fruto da sua Morte e Ressurreição. Esta Vida deve desenvolver-se sempre. Para isso, Ele ficou connosco, na Igreja: ficou especialmente nos Sacramentos; ficou na Eucaristia e na Penitência.

Vós todos, vós amigos jovens, apreciais estas fontes da Vida? Sabeis corresponder ao convite de Jesus – o Pão da Vida! – participando conscientemente na Eucaristia, com o desejo de viver em plenitude, de vencer o mal e alcançar o bem? E, quando é necessário, por causa do pecado, da imperfeição ou da fraqueza, sabeis trilhar o caminho da conversão e da reconciliação, buscando o sacramento da Penitência, o perdão e a Vida? Formai a vossa consciência e sede fiéis ao Senhor, que ama e perdoa!

6. À medida que empreendemos o “trabalho em nós próprios”, vemos claramente que não podemos ser “trabalhadores da própria salvação”, sem pensarmos simultaneamente nos outros. O problema da própria salvação está ligado organicamente à questão da salvação dos outros. E também isto é essencial para a evangelização.

O homem começa a sua vida a receber. Ao nascer acha-se inserido num mundo feito pelos outros, principalmente pelos mais próximos: pais, irmãos e irmãs. A criança recebe aí praticamente tudo, desde o alimento até à formação. Aí aprende a falar, a caminhar e a conviver. Ao descobrir as suas riquezas e capacidades, o jovem procura ultrapassar esta fase infantil do receber para passar à fase do dar. Não se contenta com o mundo que recebeu. Quer criar o “seu mundo”. É o momento da grande opção da vida. É o momento em que se desenha e se prepara a orientação básica a imprimir ao resto da vida.

Esta passagem, do receber ao dar, da dependência ao assumir a própria responsabilidade, não se dá sem crise. Mas é sobretudo crise de crescimento e de amadurecimento. Muitas vezes o jovem não é entendido, nem se entende a si mesmo. Já não quer ser tratado como criança; mas sente que ainda não é adulto. Muitas vezes vacila no seu interior.

Por outro lado, tudo parece despertar nele: descobre os valores, o sexo, o amor e o ideal; e descobre também a verdadeira dimensão da fé. Grandiosas descobertas para vós, queridos jovens!

O mundo já não vos aparece como mito, mas como grande tarefa que se vos impõe; a vossa vida já não se apresenta apenas como dom. Torna-se empenho. A vossa atitude não se reduz a esperar tudo pronto.

Duas grandes preocupações vos interpelam, na perspectiva do futuro: a preparação para a profissão e a preparação para o estado de vida. Estas duas preocupações absorvem-vos particularmente, às vezes até à impaciência. A vossa tensão de jovens pode resumir-se entre o “já” e o “ainda não”. Já sentis responsabilidade, mas ainda não tendes oportunidades para demonstrá-la. Já quereis contribuir eficazmente para o bem comum, tanto com ideias como com obras, mas ainda não se deparam as ocasiões.

Ora é exactamente neste momento, no grande momento da opção e preparação do vosso futuro, que mais precisais de Cristo. E, guiados por Ele, podereis escolher a vossa profissão e o vosso futuro, tendo em vista o bem comum e as exigências do reino de Deus, as exigências da fé. Sois chamados a “trabalhar” na salvação dos outros ao mesmo tempo que “trabalhais” na vossa salvação. Soi chamados a ser apóstolos, a evangelizar a Boa Nova, sejam quais forem as vossas opções para o futuro.

Sede generosos: escolhei com amor e preparai-vos bem. Preparai-vos para a profissão, honesta e dignamente; preparai-vos para o estado de vida que ireis abraçar; e se optardes pelo matrimónio, fazei-o com seriedade e com respeito por quem um dia há-de compartilhar convosco a vida e os ideais da família segundo Deus.

7. Na verdade, a “messe é grande”. Importa somente que cada um de nós se torne aquele “trabalhador” autenticamente evangélico. A “messe” indica o fruto do trabalho humano. Mas indica, ao mesmo tempo, o dom que vem até nós, por meio da criação.

A salvação que Cristo põe diante do homem como sua missão é, simultaneamente, um dom, é sobretudo um dom.

“...Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria, e até aos confins do mundo” (Act 1, 8). São estas as últimas palavras que, segundo os Actos dos Apóstolos, Cristo Ressuscitado pronunciou sobre a terra, antes da sua ascensão ao Céu. Encontramo-nos no período litúrgico que vai da Ressurreição à Vinda do Espírito Santo: por isso, tais palavras revestem-se para nós de especial actualidade.

É do Espírito Santo que os homens recebem a força para se salvarem. Isto é, a salvação que é para o homem tarefa pessoal e comunitária, há-de ser realizada com a força do Espírito Santo. Por isso, ela significa, ante de mais, um dom. É um grande dom no qual Deus partilha com o homem algo que é essencialmente Seu. Em certo sentido, “dá-Se a si mesmo ao homem”: dá-Se a si mesmo em Cristo.

Dá-Se para ser aquela força de verdade e de amor, que forma o “homem novo”, capaz de transformar o mundo: verdade que, manifestando-se como exigência da consciência e da dignidade humana, dita as opções do amor, amor que aproxima, faz união, eleva, constrói e salva, quando damos as mãos aos outros em fraternidade humana, cristã e eclesial. Dá-Se, em particular nos Sacramentos – Baptismo, Confirmação, Penitência, Eucaristia – pelos quais é conferido ou aumentado o dom que, do Cenáculo chegou até nós, como Pão da Vida e como “Força”, que nos enriquece, dia após dia, até ressuscitarmos para a Vida eterna, com Cristo, para vivermos junto do Pai.

Assim, devemos acolher sempre a salvação como um Dom, e, ao, mesmo tempo, a ela nos devemos aplicar como a uma missão.

Quanto mais consciência tivermos da grandeza do Dom, tanto mais ardentemente assumimos a missão, tanto mais a sério nos tornamos os “trabalhadores da messe”. Aqui está o fundo da questão; é esta a contextura vital da evangelização.

8. Cristo Ressuscitado chama os seus discípulos à evangelização, dizendo-lhes: “sereis minhas testemunhas” (Act 1, 8). Eis a palavra-chave!

Tornamo-nos testemunhas de Cristo, quando, como nos discípulos do Evangelho, amadurece em nós o problema da salvação, o problema do chamamento ao Reino de Deus. Quando o acolhemos, dele nos apropriamos e nos identificamos com ele. Quando ele dá forma a toda nossa vida e ao nosso modo de agir.

Jovens, rapazes e raparigas, filhos de Portugal dos nossos dias:

Olhai para tantos que vos precederam no passado, também eles filhos desta Pátria. Filhos da sua cultura e da sua língua. Das suas provações e da suas vitórias.

Quantos deles responderam, com a doação total da vida, ao apelo de Cristo! Da Rainha Santa Isabel a João de Deus, de António de Lisboa a João de Brito – para falar só de santos canonizados – por caminhos diferentes, todos eles se moveram na caridade de Deus, enamorados do ideal da verdade e do amor, movidos pelo Espírito e Cristo. E quem poderá dizer, perante o vosso entusiasmo e alegria, que os jovens portugueses de hoje são menos interessados, menos disponíveis e menos atentos a Cristo que os do passado? Sim, Cristo confia em vós! A Igreja confia em vós! O Papa confia em vós!

Acolhei, amados jovens, acolhei uma vez mais o chamamento de Cristo: Sede testemunhas d’Ele!"